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terça-feira, 16 de outubro de 2012

"A surdez priva do convívio social"

O médico Rodolpho Penna Lima Júnior fala dos cuidados e benefícios de um implante coclear.



O Rio Grande do Norte é um dos estados pioneiros no Brasil no implante coclear, o chamado ouvido biônico, um avanço que hoje faz do estado um dos centros de referência na implantação desse equipamento, considerado revolução no tratamento da surdez. "O implante veio e revolucionou completamente", destaca o médico Rodolpho Penna Lima Júnior, responsável pela implantação e coordenação do serviço no estado. Uma revolução na medicina e, principalmente, na vida das pessoas que passam a ouvir a partir do "ouvido biônico". O Otocentro, que foi pioneiro no Norte e Nordeste, continua sendo um grande referencial para o Brasil. Hoje, o Rio Grande do Norte é o segundo estado do país em maior número de cirurgias de implante coclear. Perde apenas para São Paulo. Em busca do serviço desenvolvido no estado potiguar chegam pacientes de diversos estados brasileiros, inclusive Brasília. Além disso, a equipe comandada por Rodolpho foi responsável por realizar as primeiras cirurgias em Brasília, Pernambuco, Ceará e Paraíba.

Um pioneirismo que começou a partir da inquietação do jovem médico Rodolpho Penna Lima Júnior quando soube que o seu estado de origem não tinha um serviço de acompanhamento para pacientes que fizessem implante coclear. Foi a partir dessa constatação que ele começou a se aprofundar e buscar meios de trazer o serviço para as terras potiguares."A surdez é uma deficiência invisível. As pessoas tendem a achar que é um problema menor, quando comparado com um problema físico, como a cegueira. Mas a surdez implica em duas grandes deficiências, quando ocorre ainda na criancinha, no ouvir e falar. Se você não ouve você não fala", frisa o médico. Ele lembra ainda do diálogo de uma bancária, que ficou surda ao longo da vida. Questionada sobre o que era a surdez, a bancária respondeu: "Você já assistiu o filme Ghost (Do outro lado da vida)? Pois é, eu sou o fantasma, eu vejo tudo, mas não participo de nada".

O convidado de hoje do "3 por 4" é um médico com todo perfil de empreendedor, um profissional que foi além do ofício e fez do Rio Grande do Norte um dos estados pioneiros no país na audiologia. Com vocês, Rodolpho Penna Lima Júnior:

O implante coclear, hoje considerado revolução para a audição, é recomendado para quem?

São adultos e crianças. Não existe idade máxima. Há 20 dias operei um paciente com 83 anos. Também pode ser feito em criança a partir de 6 meses de idade. Em pessoas que podem ter adquirido a surdez ou nascido surdos. Obviamente, você tem paciente de melhor prognóstico e aqueles de pior prognóstico, que não tem indicação de fazer. Os casos melhores adultos dividimos os que perderam a audição durante a vida, que é chamado pós lingual, é um resultado muito bom porque você já aprendeu a ouvir, sua linguagem está toda estabelecida. Agora se nasce surdo, hoje na fase adulta o resultado normalmente não é bom. Não é que não tenha indicação de fazer, porque aí entra outros aspectos. Na hora que você decide fazer o implante não é só o aspecto médico, tem o aspecto audiológico, o aspecto psicológico e nos pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) o aspecto social porque ele precisa ter a mínima condição para fazer reabilitação. Apesar de ser tudo de graça, tem a questão do transporte e ele (o paciente) precisa ter condição de fazer isso. Nas crianças a gente divide em pré-lingual, aquelas que nasceram surdas ou perderam a audição antes dos 3 anos de idade, que são os melhores resultados. A melhor idade para você aprender a ouvir e falar é até 3 anos e meio. Se você quiser que uma pessoa aprenda a falar duas línguas sem sotaque exponha essa criança bem cedo. Então, nessa idade é o melhor resultado. A partir dessa idade pode ser feito, mas o prognóstico não é tão bom. As crianças pós-linguais o resultado também é muito bom. A criança com 10 anos se perde a audição esse caso tem um bom resultado. Mas a criança, no caso das que nasceram surdas, quanto mais cedo fizerem melhor o resultado.

Uma técnica dessa se imagina que seja muito desejada pela população. Há filas de espera para o implante coclear pelo SUS?

Hoje a gente tem aproximadamente 230 pessoas de todo Brasil em avaliação, que estão no programa de implante coclear. Elas preenchem informações preliminares, a gente agenda uma consulta, passa pelo médico, pela psicóloga, assistente social, faz todos os exames necessários.

O senhor disse que há aspectos psicológicos e sociais. Que tipo de problema psicológico há?

O papel do psicólogo dentro do programa é trabalhar a ansiedade e expectativa daquela família. Imagine uma mãe e um pai super ansiosos pela chegada de um filho e a criança chega e vê que é surda. O impacto na família é muito grande. O psicólogo tem a função de trabalhar essa ansiedade. E também quando a gente decide para o implante trabalhar as expectativas da família. Não é você fazer a cirurgia, ligar o implante e a pessoa sair ouvindo e falando. Não. Ele (o paciente) vai nascer do ponto de vista auditivo no dia que for ligado o implante. Ali é o começo de uma grande jornada. Você tem que explicar para família que é lento, que precisa fazer reabilitação, terapia. Se não fizer terapia a evolução é mais lenta. Você tem que tratar a expectativa e explicar que como qualquer cirurgia pode ter complicação, que existe o risco da cirurgia por algum motivo não dar certo. 

E que aspectos sociais são esses para o implante coclear?

O implante coclear é um procedimento, não é fazer uma cirurgia e dá adeus ao paciente. É um verdadeiro casamento entre o centro que implantou e o paciente. Você faz esse implante e o paciente precisa retornar depois regularmente ao centro. Ele tem que voltar no primeiro ano de dois em dois meses porque a gente vai ajustando os parâmetros do implante para ele ouvir cada vez melhor, mais claro. No primeiro ano é de dois em dois meses, no segundo ano de três em três meses, depois de quatro em quatro meses, no quarto ano de seis em seis meses e depois uma vez por ano ad eternum. As vezes a pessoa não pode pagar uma passagem de ônibus para vir, tem que ter um nível cultural para entender como cuidar bem do implante. Nós temos uma das melhores políticas de saúde auditiva do mundo, mas não é perfeita. Por exemplo, se quebrar a unidade externa (do implante) fora da garantia o governo não dá outro. A gente tem uma preocupação muito grande com a credibilidade do implante, ele é uma tecnologia maravilhosa desde que seja feito dentro dos critérios. A gente sempre orienta as pessoas a procurarem um centro correto, com experiência.

Deixando o lado técnico, agora falando como testemunha presencial daquela pessoa que nunca ouviu nada e passa a ouvir. O que o senhor escuta dessas pessoas?

É algo extremamente emocionante. A surdez é uma deficiência invisível. As pessoas tendem a achar que é um problema menor, quando comparado com um problema físico, com a cegueira. Mas a surdez implica em duas grandes deficiências, quando ocorre ainda na criancinha; no ouvir e falar. Se você não ouve, você não fala. O surdo-mudo não fala não é porque tem problema na língua, ou na corda vocal, ele não fala porque não tem o modelo. Se você não tem audição e não tem fala, seu processo de convívio social, familiar são prejudicados. Conseqüentemente emocional. Você vê cego comediante, surdo você não vê porque ele (o surdo) não consegue nem se comunicar. Surdo normalmente é irritado. E conseqüentemente o processo educacional é mais difícil. A surdez tem implicação muito grande. Já ouvi depoimentos aqui de pai e mãe dizendo que a criança ficava chorando e ela dizia "não consigo me comunicar com meu filho". Quando a criança (com deficiência auditiva e depois de colocar o implante coclear) fala pela primeira vez "papai", "mamãe" é maravilhoso. Tem o depoimento de uma bancária que perdeu a audição com o tempo, e um dia a psicóloga disse para ela defina a surdez. Ela perguntou: você já assistiu o filme Ghost (Do outro lado da vida)? A psicóloga disse que sim e aí ela (a paciente) disse: "pois é, eu sou o fantasma, eu vejo tudo, mas não participo de nada". No adulto a surdez priva você do convívio social, profissional.

Como originou o pioneirismo do Rio Grande do Norte no implante coclear?

Acho que foi a persistência do nosso grupo. Terminei minha residência médica em 1995 e voltei para Natal. Essa era uma área a que sempre me dediquei. Vi que Natal já tinha alguma coisa, o aparelho auditivo o médico indicava, mas o paciente já ia direto comprar. Comecei a organizar toda parte de diagnóstico, treinar o pessoal, e depois que estabeleci a parte de diagnóstico comecei a fazer a triagem auditiva. A gente tinha triagem, diagnóstico, mas não tinha como resolver os casos dos pacientes que precisavam de implante. Fiz pós-graduação na área de audiologia. Lembro que lá (no serviço em Bauru) tinha um mapa do Brasil onde eles colocavam alfinete no Estado onde já havia paciente com implante, mas no Rio Grande do Norte não tinha nenhum. Eu perguntei uma vez para o professor porque não havia paciente do estado implantado, aí ele disse que não tinha ninguém para fazer o pós operatório aqui. Eu fui me dedicando, participando de cirurgias no Centrinho em Bauru durante 18 meses. Ao mesmo tempo ia treinando aqui nossa equipe.

Como o senhor avalia os aparelhos auditivos convencionais? Eles concorrem com o implante coclear?

Não é que eles concorrem. Os aparelhos auditivos hoje atingiram um nível de tecnologia fantástico, maravilhoso. Agora ele tem algumas indicações. Por exemplo a perda auditiva profunda, normalmente o resultado é muito ruim. O implante é muito superior. O resíduo auditivo da pessoa é tão pequeno que ela não tem como aproveitar aquela informação que está sendo mandada. Mas para perdas auditivas menores o aparelho auditivo pode ser uma grande opção. Hoje os critérios de indicação do implante coclear estão se expandindo e cada vez mais estamos implantando em pessoas com melhor resíduo auditivo. Para você ter idéia hoje no adulto a gente indica um implante se ele entende menos de 50% do que é dito a ele. Se ele (o paciente) usa aparelho auditivo nos dois ouvidos se ele entender menos de 50% ele vai para o implante, porque o implante vai dar mais do que 50% para ele.

Há pessoas também que compram diretamente o aparelho auditivo?

Hoje o problema que vejo do aparelho auditivo são aparelhos mal adaptados. A pessoa vai direto numa loja, compra o aparelho e aí a adaptação não é bem feita. E quem vai usar é a gaveta porque termina jogando o aparelho fora. O processo de adaptação do aparelho auditivo tem que ser bem feito.

Fonte: Tribuna do Norte - 
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